
por Cássio Brandão
Sou um torcedor apaixonado. Como, provavelmente, você que me lê agora. Sofro, grito, fico puto, choro e rio, rio muito de alegria com um gol, uma bela jogada. Vibro com a raça. E me indigno quando ela falta. A raça, de todos os elementos do futebol, é a que mais me desperta sentimentos. Condição sine qua non, deveria punir os que não entram em campo com ela, deveria expelir do mundo do futebol os que não a tem.
Pois, no dia 2 de Dezembro, o fatídico dia do rebaixamento corintiano, assim que a tv confirmou a tragédia, firmei um compromisso, quase uma promessa: veria todos os jogos em São Paulo do meu Timão. Todos. Mudaria viagens, negociaria com namoradas e amigos, mas não perderia um jogo pela série B.
Fui contra o CRB, engatei os primeiros jogos no Pacaembu e vi todos pela Copa do Brasil no Morumbi. Empolgado, parcelei um sonho de endereço até hoje bastante esquisito: Ilha do Retiro, Recife.
O que aconteceu lá não precisa de maiores explicações e não arrisco nenhum tipo de explicação com teor conspiratório. Acho apenas que faltou esta tal de raça. E isso castiga. Muito.
Voltando para casa, no vôo mais estranho de minha vida, em tom fúnebre decretei: não vou mais ao estádio este ano. Ponto. Vou me dar um tempo, permitir a mim o controle do sofrimento.
Ouvi piadas de amigos, cheguei a ser rotulado de “falso torcedor”, mas como dizia minha avó: passarinho não come pedra porque sabe o cú que tem.
Estava puto! Indignado! Como fomos ao Recife, quase cinco mil maloqueiros, e o time não correu, não chutou a gol, sequer correspondeu com um mínimo de vontade, de raça?
Só que resolvi mudar minha decisão áerea e fui ao Pacaembu hoje.
O jogo, contra o Bahia, remetia a minha primeira visão in loco de um gramado, minha mágica iniciação: 5 de Dezembro de 1990, semi-final do nosso primeiro Brasileirão conquistado. 2×1. De virada, este de Neto, o maior jogador que vi vestir o manto alvinegro. Falta para o portão principal, ele levantou o calção, respirou e nos levou às finais.
Pontualmente às 15h estava na Praça Charles Miller tomando uma cerveja e olhando o movimento. Às 16h10, quando a bola rolou, tive a certeza de que tinha errado: como pude deixar aquilo longe da minha vida? Como? Quase 40 mil torcedores cantando e pulando, empurrando o SC Corinthians Paulista.
Mas o jogo que tinha tudo para ser o meu reencontro com o Corinthians, o meu emocional pedido de desculpas não aconteceu. O Corinthians não era o… Corinthians.
Apático, acéfalo no meio de campo, sem vontade e atacando num ritmo desenfreado e até inconsequente. Com falhas mil e sem raça me fez, mais uma vez, sentir raiva.
E acabou com o meu sábado.
Nada está perdido. Pelo contrario. Somos líderes, o fim da invencibilidade aconteceu com mais de um terço de campeonato jogado e a classificação, quiça o título, é questão de tempo.
Mas ainda falta algo, algo que não se aprende, não se ensina. Ou é ou não é. E esse time atual não é o Corinthians que aprendi a ver: a tradiçao, a raça, a vontade, o coração.
Foi um reencontro amargo, muito amargo. Que entre outras coisas, me fez sentir uma saudade enorme do Neto, do Ezequiel, porra, do Jacenir…